Coronavírus e ações de contenção: o que funcionou em outros países e como isso se aplica ao Brasil

Dr. Gustavo Schvartsman • 25 de março de 2020

O discurso do presidente ontem, deixando-se de lado (se possível) a forma totalmente inadequada de se expressar, incita algumas discussões que podem ampliar uma polarização já pré-existente. Levanto aqui alguns pontos que considero importantes sobre a atual crise, tentando ser o mais técnico possível:

 

1. É consenso entre todos de que a epidemia é um grave problema sanitário e, se medidas não forem tomadas, milhares de mortes ocorrerão (difícil de se estimar quantas no Brasil, baseados em dados de outros países). A maior mortalidade é maior em idosos e portadores de doenças crônicas, mas jovens também podem ter um curso grave da doença, necessitando de intubação.

 

2. A contenção bem sucedida que ocorreu em países como Coréia do Sul e Singapura incluiu cancelamento de aglomerações, fechamento de escolas e distanciamento social, mas não envolveu um lockdown horizontal completo.

 

3. Isso foi possível graças a uma estratégia de teste indiscriminado da população com qualquer mínimo sintoma de resfriado e por livre demanda. Em Singapura, a taxa de positividade para o coronavírus foi de 1%, contra 5% de outras casuísticas, mostrando que muito mais testes foram realizados. Esses testes eram realizados em qualquer farmácia e mesmo através de drive-thru. Precisamos ser criativos para o plano de como testar as pessoas sem as expor a um ambiente aglomerado de pessoas sintomáticas.

 

4. Uma vez se testando boa parte da população, cria-se um cenário muito mais focado para isolamento seletivo dos infectados e de seus contatos próximos. Isso também se dá, nesses países, pela maior digitalização e leis mais flexíveis sobre privacidade de dados (movimentação bancária, GPS do celular, vigilância por câmeras), pensados especificamente para períodos de crise (não me aventuro a entrar no mérito dessa questão nesse post), possibilitando ações mais incisivas e inclusive com sanções graves para os infratores.

 

5. Com isso, o restante da população tem uma segurança muito maior para circular nas ruas, transporte público e estabelecimentos comerciais, minimizando o impacto econômico. O impacto econômico deve ser levado em consideração (algo que médicos pouco entendem), não para não prejudicar grandes empresários, mas pelo desemprego em massa, risco de aumento de mortes por violência e desabastecimento. Guerra de facções já começam a acontecer no RJ, ainda no início da crise, já indicando as proporções que isso pode tomar. São 60 mil assassinatos por ano no Brasil, fora de crise.

 

6. Não acredito que o Brasil consiga exercer o lockdown seletivo (ou vertical) de maneira ótima. Não tem os meios digitais nem legais para impor que infectados e contactuantes de fato se isolem dos demais. É um país muito mais populoso e vasto, menos digital e com costumes diferentes do que Coréia do Sul e Singapura. Acredito ser esse o principal fator que foi levado em consideração pelas autoridades para tomar as providências em SP e RJ.

 

7. Acredito que o lockdown horizontal por 15 dias tenha sido uma medida adequada, a fim de desacelerar a curva de novos casos e proporcionar tempo até que hospitais estejam estruturados para receber o volume de pacientes esperados. Em Nova York, já são 25 mil casos e já se vê uma escassez de recursos, pelo aumento mais rápido do que a capacidade do sistema de saúde consegue absorver.

 

8. O lockdown horizontal completo por tempo superior a 15 dias pode trazer repercussões piores no médio-longo prazo. Tais danos devem ser estimados com metodologia adequada e levados em consideração para as decisões que virão a seguir. O governo terá que criar programas de injeção (impressão) de dinheiro para evitar que o caos se instale, o que pode levar a uma inflação e todos os problemas subsequentes que já experienciamos antes, talvez em proporção maior. Vejam, não estou afirmando que vá - apenas que isso precisa ser estimado se possível.

 

9. Os profissionais de saúde precisam de estrutura adequada para o atendimento dos pacientes graves. Precisam de leitos com pressão negativa, equipamentos de proteção individual em quantidade adequada, leitos de UTI funcionantes e número de ventiladores mecânicos adequados. Soluções inovadoras como compartilhamento de ventiladores podem ser testadas se houver escassez. Medicamentos com potencial de melhora devem ser testados em caráter de pesquisa. Hidroxicloroquina é apenas um de alguns que mostraram algum efeito, mas vejo que os esforços estão concentrados nela pelo alvoroço criado. Tocilizumabe, por exemplo, também foi promissor em pacientes graves. Alvoroços são danosos à ciência, desvirtuam conceitos e redirecionam recursos.

 

10. Concluindo: precisamos testar todos de maneira indiscriminada e exercer um controle rigoroso sobre os infectados e contactuantes próximos. Nesse meio tempo, o lockdown de 15 dias em SP propicia um ganho de tempo para estruturação de hospitais para receber os pacientes graves e para implementar a realização de testes fora de ambiente hospitalar. Tempo superior a 15 dias pode trazer repercussões econômicas importantes, gerando impactos de difícil estimação e potencialmente tão catastróficas quanto a epidemia viral.



Se previna. Higienize as mãos após contato com superfícies. Não vá perto de idosos. Se for, mantenha pelo menos 1 metro de distância. Stay safe.


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Outra combinação recentemente aprovada é a de lazertinibe, molécula semelhante ao osimertinibe, com amivantamabe, que também foi superior ao osimertinibe isolado no estudo MARIPOSA, mas igualmente associada a toxicidades que exigem manejo cuidadoso. A decisão terapêutica passa por avaliação detalhada do caso, considerando aspectos radiológicos, moleculares, clínicos e as preferências do paciente. No segundo semestre de 2025, o New England Journal of Medicine publicou a análise final de sobrevida global do estudo FLAURA2 , que avaliou o uso do osimertinibe em combinação com quimioterapia à base de platina e pemetrexed como tratamento inicial. 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