ASCO 2018 - Câncer de Mama: o que há de novo?

Dr. Gustavo Schvartsman • 15 de julho de 2018

O congresso americano de oncologia clínica reuniu 40 mil profissionais. Câncer de mama foi um dos temas de mais destaque.

 

Os testes moleculares vêm ganhando destaque no tratamento do câncer de mama. Consistem em análise da biologia individual de um tumor maligno que se desenvolve na mama, examinando a atividade de genes no tecido tumoral. A partir do resultado desses testes, pode-se refinar a estimativa do risco de o tumor retornar, acrescendo-se das características tradicionais do tumor e da paciente. Um estudo muito aguardado, de nome TailorX, recrutou pacientes com câncer de mama localizado de até 5 centímetros, sem linfonodos acometidos, e  realizou o teste molecular Oncotype Dx para definir quem se beneficia de tratamento pós-operatório com hormonioterapia isolada ou com hormonioterapia associada à quimioterapia. Em um momento anterior, já havia sido publicado dados para os grupos de baixo risco (escore < 11), mostrando excelentes desfechos em pacientes que receberam apenas hormonioterapia, sem associação de quimioterapia. Na apresentação deste ano, a parcela de pacientes com escore entre 11 e 25 foi randomizado para receber quimioterapia seguida de hormonioterapia contra hormonioterapia isolada. O estudo de maneira geral mostrou que podemos poupar cerca de 70% da pacientes de tratamento quimioterápico, restando dúvidas apenas pacientes com escore de 21 a 25 com menos de 50 anos poderiam se beneficiar de quimioterapia. Vale lembrar que quimioterapia foi dada a todas as pacientes com escore > 25, não se podendo afirmar se tiveram de fato benefício (assume-se que por serem de alto risco de recidiva, a quimioterapia trará benefícios e seria arriscado não tratá-las).

 

Outro trabalho que ganhou grande destaque foi um estudo chamado Persephone, com um desenho chamado não-inferioridade (testa se o grupo experimental não é inferior ao grupo controle, ao invés de se é superior). Esse estudo, que envolve políticas públicas de saúde de custo-efetividade, foi financiado pelo governo britânico. Cerca de 4.000 pacientes com câncer de mama localizado, HER-2 positivo, foram randomizadas para receber tratamento pós-operatório com quimioterapia associada a 6 meses (grupo experimental) ou 12 meses (tratamento padrão) de trastuzumab, um anticorpo monoclonal direcionado ao receptor HER-2. A intenção de descalonar o tratamento seria a de baixar custos e diminuir a incidência de toxicidades, principalmente cardíaca. Esse estudo mostrou que, em quatro anos, 89,8% das pacientes estavam vivas e sem evidência de doença no grupo padrão, comparado com 89,4% no grupo experimental. O estudo atingiu seu objetivo primário de não-inferioridade, argumentando que a maioria das mulheres que se encaixe nesse perfil poderiam ser poupadas dos 6 meses adicionais de trastuzumabe (economia de cerca de 60 a 70 mil reais por paciente, e redução de cardiotoxidade de 8% para 4%). Esses dados, porém, devem ser interpretados com cautela, visto que o padrão de quimioterapia foi modificado durante o processo de recrutamento desse estudo. Assim, a aplicabilidade desses dados tem de ser individualizada para cada paciente. Para grande parte das pacientes, a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica se posicionou a favor da redução da duração de tratamento, particularmente no Sistema Único de Saúde, no qual a medida implicaria uma economia significativa de recursos que poderiam ser realocados em outros tratamentos oncológicos.

 

Um terceiro estudo bastante interessante, agora no cenário de doença avançada (com metástases), foi o MONALEESA 3. Esse estudo randomizou 726 pacientes com câncer de mama metastático, na pós-menopausa, com receptores hormonais positivos e sem expressão de HER-2, para receber, em segunda linha de tratamento,  em sua maioria, uma combinação de fulvestranto (bloqueador do receptor de estrogênio) com ribociclib, um inibidor de CDK 4/6, versus Fulvestranto isolado. O resultado do estudo foi um aumento de sobrevida livre de doença mediana de 12,8 para 20,5 meses em favor do tratamento combinado (HR = 0,59).

 

Por fim, dois estudos fase 3, com mais de 3.500 pacientes, avaliaram prospectivamente o uso de Denosumab, um inibidor de RANK-L, como tratamento adjuvante em pacientes com câncer de mama após cirurgia. O ABCSG18 e o D-CARE tiveram resultados contrários. O primeiro mostrou uma melhora significativa em sobrevida livre de doença (HR = 0,82), sendo que 89,2% não tinham doença após cinco anos com Denosumab, versus 87,3% para o grupo controle. Já o segundo estudo foi negativo em seu desfecho primário, sobrevida livre de metástase óssea (HR de 0,97) e em seus desfechos secundários, sobrevida livre de doença e sobrevida global. Portanto, ainda não temos dados definitivos sobre esse assunto, apesar de ser indiscutível o benefício de diminuição de fraturas patológicas decorrentes do uso de inibidores de aromatase em mulheres menopausadas.


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Quem pode se beneficiar do Osimertinibe no câncer de pulmão? O Osimertinibe beneficia principalmente pacientes com carcinoma de pulmão de não pequenas células que apresentam mutações específicas no gene EGFR, como deleção no éxon 19, L858R e T790M. Esses pacientes respondem melhor porque o tumor depende diretamente dessa via molecular. Introdução O uso do Osimertinibe no câncer de pulmão transformou o tratamento de pacientes com tumores que apresentam mutações específicas no gene EGFR. Esse medicamento marcou uma mudança importante na oncologia ao oferecer maior eficácia, melhor tolerabilidade e capacidade de atuar inclusive em metástases cerebrais. Hoje, ele é considerado o tratamento padrão em várias situações, desde diagnóstico inicial até doença avançada. Este artigo explica quem pode se beneficiar dessa medicação, como ela age, quando é indicada e por que o teste genético é indispensável para orientar a terapia. Continue a leitura para entender como esse avanço pode impactar o tratamento. O que é o Osimertinibe e como ele funciona? O Osimertinibe é um inibidor de tirosina-quinase (TKI) de terceira geração usado no tratamento de tumores pulmonares que apresentam mutações específicas no gene EGFR. Ele foi desenvolvido para bloquear sinalizações que mantêm o crescimento celular descontrolado em muitos casos de carcinoma de pulmão de não pequenas células. Por atuar de forma precisa, tornou-se um dos pilares do tratamento moderno para pacientes com mutações sensíveis e resistentes no EGFR. Mecanismo de ação O medicamento atua de forma seletiva sobre mutações EGFR importantes, como: L858R Deleções no éxon 19 Mutação de resistência T790M Outro aspecto relevante é sua capacidade de atravessar a barreira hematoencefálica , permitindo controle eficaz de lesões cerebrais. Por que isso importa Ao bloquear a via EGFR, o Osimertinibe interrompe sinais que estimulam a proliferação tumoral. Como resultado, reduz o crescimento do tumor e prolonga a sobrevida . Evidências mostram benefício consistente até mesmo em pessoas previamente tratadas com outros TKIs, reforçando seu papel como terapia de alto impacto. Quem pode se beneficiar do Osimertinibe no câncer de pulmão Pacientes com mutações EGFR sensibilizantes O grupo mais beneficiado inclui pessoas com: Deleções no éxon 19 L858R no éxon 21 Algumas outras alterações mais raras no EGFR Pacientes com mutação T790M A mutação T790M aparece como forma de resistência em aproximadamente 50 a 60 por cento dos pacientes tratados com TKIs de gerações anteriores. O Osimertinibe foi o primeiro TKI a demonstrar eficácia comprovada contra essa alteração, com impacto direto no controle da doença. Pacientes com metástases cerebrais Por atravessar o sistema nervoso central, o medicamento é especialmente útil para: Controlar metástases cerebrais já diagnosticadas Prevenir o surgimento de novas lesões Reduzir sintomas neurológicos Postergar radioterapia Dados publicados no New England Journal of Medicine evidenciam redução significativa no risco de progressão intracraniana. Pacientes recém diagnosticados com doença avançada No estudo FLAURA , considerado referência global, o osimertinibe mostrou aumento da sobrevida global para 18,9 meses, contra 10,2 meses com outros TKIs. Em cenários de maior risco biológico, estratégias de intensificação terapêutica têm sido avaliadas. Nesse contexto, o uso do osimertinibe associado à quimioterapia demonstrou prolongamento do tempo até progressão da doença e da sobrevida global, à custa de maior incidência de efeitos colaterais, sendo uma abordagem reservada para casos selecionados. Outra combinação recentemente aprovada é a de lazertinibe, molécula semelhante ao osimertinibe, com amivantamabe, que também foi superior ao osimertinibe isolado no estudo MARIPOSA, mas igualmente associada a toxicidades que exigem manejo cuidadoso. A decisão terapêutica passa por avaliação detalhada do caso, considerando aspectos radiológicos, moleculares, clínicos e as preferências do paciente. No segundo semestre de 2025, o New England Journal of Medicine publicou a análise final de sobrevida global do estudo FLAURA2 , que avaliou o uso do osimertinibe em combinação com quimioterapia à base de platina e pemetrexed como tratamento inicial. Os resultados demonstraram ganho adicional de sobrevida global em comparação ao osimertinibe isolado, com mediana de 47,5 meses versus 37,6 meses, respectivamente, confirmando que a intensificação terapêutica pode trazer benefício clínico relevante em pacientes selecionados, embora associada a maior incidência de efeitos adversos, exigindo criteriosa avaliação individual. Pacientes operados com alto risco de recidiva Desde 2020, o Osimertinibe é aprovado como terapia adjuvante em alguns estágios de tumores operados com mutações EGFR, que carregam alto risco de recidiva a despeito da cirurgia completa. O estudo ADAURA demonstrou uma redução de aproximadamente 80 por cento no risco de recidiva ou morte. Efeitos colaterais O Osimertinibe costuma ser bem tolerado, mantendo bom perfil de segurança. Entre os efeitos mais frequentes estão diarreia, erupções cutâneas, fadiga, alterações nas unhas, e tosse leve. Efeitos raros incluem pneumonite e prolongamento do intervalo QT. O monitoramento com o oncologista reduz riscos e permite ajustes adequados do tratamento quando necessário. Como é feito o diagnóstico das mutações EGFR Para indicar o Osimertinibe corretamente, é essencial identificar as mutações por meio de: Sequenciamento de nova geração (NGS) PCR em tempo real Biópsia líquida (quando o tumor libera DNA no sangue) Esses métodos estão amplamente disponíveis e ajudam a escolher a melhor abordagem terapêutica. Atenção! O NGS é sempre preferível para buscar co-mutações associadas ao EGFR que podem afetar prognóstico e auxiliar na decisão de tratamento, uma vez que hoje há mais de uma opção. Esse método sequencia centenas de genes ao mesmo tempo. Por que isso é decisivo Sem o teste molecular, não é possível confirmar se o tumor depende da via EGFR. Sem essa informação, o tratamento pode não trazer o benefício esperado. 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