Dezembro Laranja: O que preciso saber sobre prevenção de câncer de pele?

Dr. Gustavo Schvartsman • 14 de dezembro de 2018

O verão chegou, e a preocupação com saúde e estética no Brasil ganha força para a temporada de praia. Essa época do ano é a principal vilã no que diz respeito ao câncer de pele, tanto do tipo melanoma quando não-melanoma.

 

Aqui, discutiremos dinamicamente 10 pontos-chave sobre esse câncer e como prevení-lo.


Como prevenir o Câncer de Pele?

 

1. Quais tipos de câncer de pele existem?

Os tumores mais frequentes são os carcinomas basocelulares e espinocelulares. Muitas vezes ocorrem múltiplas vezes em um mesmo indivíduo. O melanoma é menos frequente, mas o mais letal. Existe o carcinoma de Merkel, extremamente raro e agressivo.

 

2. Qual o principal fator de risco?

Exposição indevida à radiação ultravioleta (UV).

 

3. Quais tipos de radiação UV existem e quando ocorrem?

- UVA: ocorre o ano todo, independente do horário. Causa envelhecimento da pele e inflamação, que indiretamente pode causar câncer.

- UVB: ocorre em picos, das 10-16h, principalmente durante o verão. É responsável pela queimadura e bronzeamento, e é diretamente absorvido pelo DNA das células da pele, sendo o principal fator de risco para o câncer.

- UVC: incompatível com a vida, absorvida praticamente por completo pela camada de ozônio.

- Luz visível: não é ultravioleta, mas pode se associar ao envelhecimento da pele. Pouco associada ao câncer.

 

4. Devo passar protetor solar somente quando sair ao sol?

Não. A proteção solar deve ser diária, independente da época do ano ou atividade. O famoso "sol de inverno", que não queima e nem bronzeia, ocorre pela baixa carga de UVB, mas a radiação por UVA ocorre normalmente, causando envelhecimento e inflamação da pele. Nos dias de sol, a proteção deve ser intensificada com chapéus e camisetas de manga longa, preferencialmente com fator de protetor solar. A exposição intermitente e intensa é a pior forma de interagir com o sol. Quando a pele descama frequentemente, é indício de que a lesão mais grave por UVB ocorreu. A exposição na infância e adolescência nesse padrão é gravíssima e fator de risco importante para desenvolver câncer de pele no futuro. Os pais devem proteger os filhos desde cedo, tanto para minimizar esse risco, quanto para criar o hábito.

 

5. O que é o FPS do protetor solar?

O Fator de Proteção Solar (FPS) é um índice que determina o tempo de exposição aos raios solares, com a pele devidamente protegida, sem que a pele se queime. O cálculo ocorre multiplicando-se o tempo que sua pele normalmente levaria para sofrer qualquer queimadura pelo valor do FPS.

Exemplo: se sua pele leva 5 minutos desprotegida no sol para se queimar, um protetor com FPS de 30 aumentaria esse tempo para 150 minutos. Isso significa que um FPS de 60 não tem o dobro de proteção que o de 30, mas sim persiste por mais tempo. Note que esse cálculo é em situações ideais, não levando em conta o contato com a água e a perda pelo suor da pele. O protetor deve ser reaplicado a cada 2-3h se em contato direto com o sol ou após suor excessivo e contato com água.

 

6. E a vitamina D?

Uma das etapas da produção de vitamina D no corpo é através da síntese de colecalciferol (Vitamina D3) a partir de moléculas de colesterol. Essa produção é ativada pela radiação UVB e é a principal fonte de vitamina D do corpo. Para que esse efeito ocorra, são necessários no máximo 15 minutos de exposição ao sol sem protetor solar. Há uma epidemia de baixas concentrações de vitamina D, pelas jornadas de trabalho dentro de ambientes fechados e uso de protetor solar sistemático. Em casos de dosagem < 20 ng/mL, está indicada a suplementação de Vitamina D3.

 

 

7. As câmaras de bronzeamento artificial oferecem mais risco?

Categoricamente sim. O risco de câncer é elevadíssimo e a prática é proibida em diversos países. No Brasil, é proibida desde 2009. Hoje, existem técnicas de bronzeamento a base de cremes e jatos, de duração limitada e segurança ainda questionável, de forma que não recomendamos o bronzeamento artificial por qualquer método, e um zelo com o bronzeamento natural.

 

8. O melanoma é hereditário?

Menos de 10% dos melanomas são causados por mutações genéticas herdadas do pai ou da mãe. A maior parte dos casos ocorre pela herança de uma pele clara e suscetível aos danos solares. Com uma proteção adequada, porém, esse risco é minimizado.

 

9. Tenho que fazer um rastreamento para procurar o tumor em fase precoce?

Não há indicação de exame dermatológico para a população geral. Indicamos uma visita anual ao dermatologista para pessoas com pele clara, que se queima fácil, com múltiplas pintas e com história familiar de câncer de pele. O exame do especialista é simples, rápido e tem maior chance de detectar tumores iniciais e em locais de difícil visualização no auto-exame.

 

10. O câncer de pele é curável?

Como regra, se diagnosticado precocemente, a cirurgia com remoção completa da lesão cura mais de 90% dos casos. Quando há disseminação de células de melanoma para linfonodos, as chances de cura caem para 60%, e quando o tumor é metastático apenas 20% sobrevivem em 5 anos. Hoje, com a imunoterapia, estamos observando uma mudança no panorama da doença metastática, com cerca de 30-40% dos pacientes atingindo respostas duradouras.

 

11) É seguro utilizar protetores solares caseiros (óleos)?

Não. Ouvimos muito falar que óleos, por exemplo óleo de coco, oferecem um FPS de 15-20. Isso só poderia ser confiável se, ao comprar óleo de coco na farmácia ou no supermercado (ou mesmo confeccionar um caseiro), o produto tivesse esse número em evidência, o que não ocorre. Isso assim é não pela ausência de qualquer proteção, mas por não ter sido rigorosamente testado para esse fim. Um produto, para ter o FPS registrado e confiável, deve ter as seguintes características:

- Proteção adequada, na proporção correta, contra raios UVA e UVB;

- Estabilidade da fórmula em relação aos próprios ingredientes, em relação ao contato com a pele, agua e o ar, e em relação às reações desencadeadas pela luz solar - esse é o fator mais importante pois, se não for estável, o produto pode ser ineficaz já desde sua aplicação;

- Homogeneidade adequada da fórmula, para garantir uma camada e tamanho de emulsão apropriados e consistentes.

 

12) Usar camiseta substitui o protetor solar?

Camisetas convencionais, de tecidos como algodão, tem um FPS de ao redor de 7. Quando molhadas, o FPS pode cair para 3. É uma proteção importante para períodos de exposição, e certamente melhor do que sem a camiseta (vide as famosas marcas de camiseta que ficam após longas caminhadas). As camisetas, bermudas, chapéus com FPS 30+ geralmente são feitas de tecidos sintéticos e com dióxido de titânio, que age de maneira eficaz como método físico, de barreira. É um método de proteção interessante, pois não se perde ao longo das horas, ganha em praticidade (particularmente com crianças) e evita a absorção de químicos do protetor solar.

 

13) Todos os protetores solares são iguais?

Há muitas marcas. O que diferencia o preço é a qualidade e rigor da fórmula, que pode garantir a proteção por mais tempo. Estabilizantes mais baratos, ademais, podem ser mais alergênicos. Algumas marcas mais caras não utilizam substâncias como parabenos, álcool, perfumes e sulfatos. O importante é garantir um FPS de ao menos 30, com proteção UVA - o nome da escala é PPD - de ao menos 10.


Conclusão

 

Concluindo, muita cautela nesse verão. Cuide bem de sua pele. A curta duração de um bronzeamento sazonal pode significar uma pele danificada no longo prazo. Evitar o sol e se proteger adequadamente é essencial para chegar na terceira idade com uma aparência jovem e saudável. Cuide bem da pele de seus filhos, pois esse hábito começa desde cedo.


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Pacientes com metástases cerebrais Por atravessar o sistema nervoso central, o medicamento é especialmente útil para: Controlar metástases cerebrais já diagnosticadas Prevenir o surgimento de novas lesões Reduzir sintomas neurológicos Postergar radioterapia Dados publicados no New England Journal of Medicine evidenciam redução significativa no risco de progressão intracraniana. Pacientes recém diagnosticados com doença avançada No estudo FLAURA , considerado referência global, o osimertinibe mostrou aumento da sobrevida global para 18,9 meses, contra 10,2 meses com outros TKIs. Em cenários de maior risco biológico, estratégias de intensificação terapêutica têm sido avaliadas. Nesse contexto, o uso do osimertinibe associado à quimioterapia demonstrou prolongamento do tempo até progressão da doença e da sobrevida global, à custa de maior incidência de efeitos colaterais, sendo uma abordagem reservada para casos selecionados. Outra combinação recentemente aprovada é a de lazertinibe, molécula semelhante ao osimertinibe, com amivantamabe, que também foi superior ao osimertinibe isolado no estudo MARIPOSA, mas igualmente associada a toxicidades que exigem manejo cuidadoso. A decisão terapêutica passa por avaliação detalhada do caso, considerando aspectos radiológicos, moleculares, clínicos e as preferências do paciente. No segundo semestre de 2025, o New England Journal of Medicine publicou a análise final de sobrevida global do estudo FLAURA2 , que avaliou o uso do osimertinibe em combinação com quimioterapia à base de platina e pemetrexed como tratamento inicial. 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