Novas tecnologias no tratamento do câncer de próstata

Dr. Gustavo Schvartsman • 29 de julho de 2019

Hoje, a incorporação de novas tecnologias no tratamento dos mais diversos estágios do câncer de próstata já é realidade em alguns centros de especialidade do Brasil. Aqui, reviso as principais novidades que já utilizamos na prática clínica e algumas ainda em estudos experimentais, com resultados promissores.

 

Diagnóstico


Ga-68 PET-PSMA

Pode ser feito tanto com tomografia computadorizada (PET-CT) ou com ressonância magnética (PET-RM). O PET-CT é um exame de realização mais rápida e ideal para estadiamento do corpo inteiro, seja no diagnóstico inicial ou na recidiva de doença após tratamento curativo. O PET-RM vem sendo estudado em comparação com a RM multiparamétrica apenas com contraste a base de gadolíneo para o diagnóstico inicial do câncer de próstata, e resultados iniciais são promissores para detecção de câncer clinicamente mais significativo. O PET-RM de corpo inteiro pode ser feito na mesma sequência para estadiamento do corpo todo, se indicado. A desvantagem do método ainda é o custo elevado.

 

Tratamento da doença localizada



As terapias acima, chamadas terapias focais, vêm sendo cada vez mais utilizadas. A principal indicação é em tumores em estágios muito iniciais, onde a cirurgia ou radioterapia definitivos podem representar um tratamento excessivo para o baixo risco de morte por esse tipo e estágio do câncer, agregando possíveis efeitos colaterais importantes de longo prazo como impotência sexual e incontinência urinária. Nesses casos, a vigilância ativa pode ser indicada, onde o paciente é apenas seguido de perto com dosagens rotineiras de PSA e re-biópsias para avaliar um crescimento tumoral que dispare o tratamento definitivo. Porém, muitos pacientes não toleram psicologicamente a vigilância ativa, sendo o tratamento focal uma opção com bom controle de doença. Outra possível indicação, a depender do caso, ocorre na recidiva local de doença, seja após uma prostatectomia ou radioterapia, caso haja uma lesão remanescente bem identificada e passível de tratamento.

 

Cirurgia Robótica


 A cirurgia robótica hoje é uma unanimidade entre os urologistas para a realização de prostatectomia radical, quando disponível. O aprendizado do manuseio da tecnologia é mais fácil do que para a cirurgia laparoscópica sem robô, e a amplitude e precisão de movimentos que o robô proporciona é significativamente melhor do que a cirurgia laparoscópica e mesmo a prostatectomia aberta com visualização direta. Além disso, as vantagens da técnica robótica sobre a cirurgia aberta são de sangramento intra-operatório e necessidade de transfusão sanguínea significativamente menores (geralmente < 100 ml de sangue é perdido), tempo de internação hospitalar e complicações reduzidos e inclusive menores custos, quando todos os custos da jornada são agrupados e empacotados.

 

 

Tratamento da doença avançada ou metastática

 

177-Lutécio-PSMA

Apesar da ampla gama de medicamentos hoje disponíveis para tratar os mais diversos cenários do câncer de próstata metastático (quimio e hormonioterapias), os tumores de muitos pacientes invariavelmente adquirirão resistência aos tratamentos. O lutécio-177 é uma molécula que emite radiação beta, desenvolvida com alta afinidade ao PSMA (antígeno de membrana específico da célula próstática), entregando a radiação somente nas células que expressam esse antígeno. Seu uso foi estudado em pacientes alemães, onde mais de metade apresentou benefício clínico, mesmo após múltiplas linhas de tratamento. Infelizmente, pelo avançar da doença, o benefício foi de duração limitada para grande parcela dos doentes. Alguns pacientes, no entanto, viveram por mais de um ano sem evidência de progressão.

 

Inibidores de PARP

Cerca de 30% dos pacientes com câncer de próstata apresentam alguma mutação gerando um defeito no reparo de DNA das células tumorais. O tratamento com olaparibe, um inibidor de PARP (uma enzima importante de uma das vias de reparo do DNA, via esta que é muito utilizada pelas células cancerosas quando outras vias estão danificadas pelas mutações), beneficiou quase 90% dos pacientes portadores dessas mutações, que incluem genes como BRCA, CHEK2 e ATM. Novamente, pelo avançar da doença, o benefício é de duração limitada, por volta de um ano.

 

O teste dessas terapias em cenários mais precoces é necessário para avaliar se o benefício é mais significativo em um paciente mais saudável e com menor volume e resistência de doença.

 

Fontes:

- https://www.ejradiology.com/article/S0720-048X(19)30082-8/fulltext

- http://www.europeanurology.com/retrieve/pii/S0302283814009737

- https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/bju.14710

- https://www.thelancet.com/journals/lanonc/article/PIIS1470-2045(18)30198-0/fulltext

- https://www.nejm.org/doi/10.1056/NEJMoa1506859

 


anticorpos biespecíficos
Por Gustavo Schvartsman 12 de fevereiro de 2026
Entenda como os anticorpos biespecíficos estão transformando o tratamento do câncer, com novas terapias, mecanismos de ação e aplicações clínicas promissoras.
sono e câncer
Por Gustavo Schvartsman 10 de fevereiro de 2026
Sono e câncer: Entenda a relação, como noites mal dormidas afetam o organismo e o que a ciência revela sobre risco, prevenção e saúde.
exposição ao sol e câncer
Por Gustavo Schvartsman 5 de fevereiro de 2026
Conheça qual é o limite saudável de exposição ao sol, como prevenir o câncer de pele e quais cuidados realmente fazem diferença para a sua saúde.
cirurgia ou radioterapia para câncer de próstata
Por Gustavo Schvartsman 3 de fevereiro de 2026
Cirurgia ou radioterapia para câncer de próstata na fase inicial, entenda diferenças, benefícios, riscos e como escolher o tratamento mais adequado.
câncer de próstata resistente à castração
Por Gustavo Schvartsman 21 de janeiro de 2026
Entenda o que significa Câncer de próstata resistente à castração, por que acontece e quais tratamentos podem oferecer controle e qualidade de vida.
Por Gustavo Schvartsman 13 de janeiro de 2026
Quem pode se beneficiar do Osimertinibe no câncer de pulmão? O Osimertinibe beneficia principalmente pacientes com carcinoma de pulmão de não pequenas células que apresentam mutações específicas no gene EGFR, como deleção no éxon 19, L858R e T790M. Esses pacientes respondem melhor porque o tumor depende diretamente dessa via molecular. Introdução O uso do Osimertinibe no câncer de pulmão transformou o tratamento de pacientes com tumores que apresentam mutações específicas no gene EGFR. Esse medicamento marcou uma mudança importante na oncologia ao oferecer maior eficácia, melhor tolerabilidade e capacidade de atuar inclusive em metástases cerebrais. Hoje, ele é considerado o tratamento padrão em várias situações, desde diagnóstico inicial até doença avançada. Este artigo explica quem pode se beneficiar dessa medicação, como ela age, quando é indicada e por que o teste genético é indispensável para orientar a terapia. Continue a leitura para entender como esse avanço pode impactar o tratamento. O que é o Osimertinibe e como ele funciona? O Osimertinibe é um inibidor de tirosina-quinase (TKI) de terceira geração usado no tratamento de tumores pulmonares que apresentam mutações específicas no gene EGFR. Ele foi desenvolvido para bloquear sinalizações que mantêm o crescimento celular descontrolado em muitos casos de carcinoma de pulmão de não pequenas células. Por atuar de forma precisa, tornou-se um dos pilares do tratamento moderno para pacientes com mutações sensíveis e resistentes no EGFR. Mecanismo de ação O medicamento atua de forma seletiva sobre mutações EGFR importantes, como: L858R Deleções no éxon 19 Mutação de resistência T790M Outro aspecto relevante é sua capacidade de atravessar a barreira hematoencefálica , permitindo controle eficaz de lesões cerebrais. Por que isso importa Ao bloquear a via EGFR, o Osimertinibe interrompe sinais que estimulam a proliferação tumoral. Como resultado, reduz o crescimento do tumor e prolonga a sobrevida . Evidências mostram benefício consistente até mesmo em pessoas previamente tratadas com outros TKIs, reforçando seu papel como terapia de alto impacto. Quem pode se beneficiar do Osimertinibe no câncer de pulmão Pacientes com mutações EGFR sensibilizantes O grupo mais beneficiado inclui pessoas com: Deleções no éxon 19 L858R no éxon 21 Algumas outras alterações mais raras no EGFR Pacientes com mutação T790M A mutação T790M aparece como forma de resistência em aproximadamente 50 a 60 por cento dos pacientes tratados com TKIs de gerações anteriores. O Osimertinibe foi o primeiro TKI a demonstrar eficácia comprovada contra essa alteração, com impacto direto no controle da doença. Pacientes com metástases cerebrais Por atravessar o sistema nervoso central, o medicamento é especialmente útil para: Controlar metástases cerebrais já diagnosticadas Prevenir o surgimento de novas lesões Reduzir sintomas neurológicos Postergar radioterapia Dados publicados no New England Journal of Medicine evidenciam redução significativa no risco de progressão intracraniana. Pacientes recém diagnosticados com doença avançada No estudo FLAURA , considerado referência global, o osimertinibe mostrou aumento da sobrevida global para 18,9 meses, contra 10,2 meses com outros TKIs. Em cenários de maior risco biológico, estratégias de intensificação terapêutica têm sido avaliadas. Nesse contexto, o uso do osimertinibe associado à quimioterapia demonstrou prolongamento do tempo até progressão da doença e da sobrevida global, à custa de maior incidência de efeitos colaterais, sendo uma abordagem reservada para casos selecionados. Outra combinação recentemente aprovada é a de lazertinibe, molécula semelhante ao osimertinibe, com amivantamabe, que também foi superior ao osimertinibe isolado no estudo MARIPOSA, mas igualmente associada a toxicidades que exigem manejo cuidadoso. A decisão terapêutica passa por avaliação detalhada do caso, considerando aspectos radiológicos, moleculares, clínicos e as preferências do paciente. No segundo semestre de 2025, o New England Journal of Medicine publicou a análise final de sobrevida global do estudo FLAURA2 , que avaliou o uso do osimertinibe em combinação com quimioterapia à base de platina e pemetrexed como tratamento inicial. Os resultados demonstraram ganho adicional de sobrevida global em comparação ao osimertinibe isolado, com mediana de 47,5 meses versus 37,6 meses, respectivamente, confirmando que a intensificação terapêutica pode trazer benefício clínico relevante em pacientes selecionados, embora associada a maior incidência de efeitos adversos, exigindo criteriosa avaliação individual. Pacientes operados com alto risco de recidiva Desde 2020, o Osimertinibe é aprovado como terapia adjuvante em alguns estágios de tumores operados com mutações EGFR, que carregam alto risco de recidiva a despeito da cirurgia completa. O estudo ADAURA demonstrou uma redução de aproximadamente 80 por cento no risco de recidiva ou morte. Efeitos colaterais O Osimertinibe costuma ser bem tolerado, mantendo bom perfil de segurança. Entre os efeitos mais frequentes estão diarreia, erupções cutâneas, fadiga, alterações nas unhas, e tosse leve. Efeitos raros incluem pneumonite e prolongamento do intervalo QT. O monitoramento com o oncologista reduz riscos e permite ajustes adequados do tratamento quando necessário. Como é feito o diagnóstico das mutações EGFR Para indicar o Osimertinibe corretamente, é essencial identificar as mutações por meio de: Sequenciamento de nova geração (NGS) PCR em tempo real Biópsia líquida (quando o tumor libera DNA no sangue) Esses métodos estão amplamente disponíveis e ajudam a escolher a melhor abordagem terapêutica. Atenção! O NGS é sempre preferível para buscar co-mutações associadas ao EGFR que podem afetar prognóstico e auxiliar na decisão de tratamento, uma vez que hoje há mais de uma opção. Esse método sequencia centenas de genes ao mesmo tempo. Por que isso é decisivo Sem o teste molecular, não é possível confirmar se o tumor depende da via EGFR. Sem essa informação, o tratamento pode não trazer o benefício esperado. Osimertinibe como parte de um tratamento personalizado O plano terapêutico é individualizado e leva em conta o tipo e localização do tumor, o estágio da doença, a existência de metástases e as condições clínicas do paciente. Muitas vezes, o Osimertinibe integra um programa terapêutico que pode incluir: Imunoterapia Quimioterapia Radioterapia Cuidados de suporte Essa integração promove melhor controle, diminui sintomas e contribui para avanços importantes na qualidade de vida. Perguntas frequentes
terapia celular CAR-T
Por Gustavo Schvartsman 10 de dezembro de 2025
Entenda como a terapia celular CAR-T está sendo adaptada para tratar tumores sólidos e quais são os principais avanços, desafios e perspectivas dessa tecnologia.
inibidores de checkpoint imunológico
Por Gustavo Schvartsman 3 de dezembro de 2025
Inibidores de checkpoint imunológico: O que são, quando são indicados, quais são seus benefícios? Entenda.
o que é radiofármacos
Por Gustavo Schvartsman 26 de novembro de 2025
Saiba o que é radiofármacos, como atuam no tratamento oncológico, em quais casos são usados e quais avanços essa estratégia traz para a medicina do câncer.
rastreamento genômico e teste genético
Por Gustavo Schvartsman 18 de novembro de 2025
Entenda as diferenças entre rastreamento genômico e teste genético e como essas análises ajudam na prevenção e tratamento personalizado do câncer.