Tabagismo: depois de muito tempo, adianta parar?

Dr. Gustavo Schvartsman • 12 de agosto de 2019

O cigarro acompanha quase todos os momentos da vida de um tabagista. Desde o início do uso, costumeiramente na adolescência ou no princípio da terceira década de vida, ele é elemento constante ao longo de toda a jornada.

 

Eu, como oncologista, infelizmente presencio onde essa jornada termina. Quase todos os tabagistas terminarão sua vida por doença cardiovascular, respiratória ou câncer. O risco de câncer de pulmão, por exemplo, é elevado em 200 vezes com o hábito de fumar. Dessa forma, o objetivo desse artigo não é de doutrinar ou de desmerecer pessoas que fumam, mas sim transmitir a experiência de quem está presente na parte final dessa trajetória, e tem a oportunidade de intervir no começo dela.

 

Já ouvi diversas frases de pessoas que não desejam parar de fumar, ou que desejam mas não acharam meios para fazê-lo ainda. "Já fumei tanto tempo - que adianta parar agora?"; "é impossível parar de fumar. Já tentei e não consegui"; "mas eu fumo tão pouco"; "fumo só quando bebo socialmente"; "eu não faço mal a ninguém, somente a mim mesmo e estou OK com isso"; "eu sei que vou morrer um dia, então melhor viver feliz com meu cigarro".

 

O tabagismo, mais do que um hábito, é um vício à substância nicotina. Vamos revisar cada uma dessas frases, que considero pontes para uma discussão importante, que pode ajudar o fumante ativo e seus familiares.

 

"Já fumei tanto tempo - que adianta parar agora?"

Os efeitos no corpo a partir do último cigarro que a pessoa fumar são muito bem estudados. Após 20 minutos, a pressão arterial e frequência cardíaca já se normalizam. Após algumas semanas, a capacidade pulmonar e circulatória melhoram significativamente. A tosse e pigarro começam a diminuir, a voz deixa de ficar rouca.



No longo prazo, os riscos de câncer reduzem significativamente, independentemente da idade de cessação. Apesar disso, nunca atingirem o patamar de pessoas que nunca fumaram, de forma que a prevenção é o mais importante.



"É impossível parar de fumar. Já tentei e não consegui"

É um fato que o primeiro passo para a cessação do tabagismo é o fumante ter o desejo de parar. É bem documentado que a tentativa forçada de cessação no fumante que ainda não atingiu seu momento de querer parar está fadada a falhar.

 

Hoje, são diversas estratégias utilizadas para a redução e cessação do fumo:

- Fazer uma lista de por que parar (melhorar a saúde, proteger e dar bom exemplo aos filhos, economizar dinheiro)

- Se desfazer de tudo que lembrar o cigarro (jogar isqueiro, cinzeiro e maços fora, lavar as roupas e cortinas).

- Se atentar aos hábitos que desencadeiam a vontade de fumar (café, roda de amigos específicos, bebida alcóolica) e tentar quebrá-los.

- Mudança de estilo de vida, com redução dos causadores de estresse (trabalho, relacionamentos disfuncionais), melhora da alimentação e início de atividade física.

- Diminuindo gradativamente a carga tabágica (atrasar o primeiro cigarro da manhã, espaçar mais cada um, não fumar o cigarro até o final), e valorizar cada conquista.

- Estratégias de reposição de nicotina: goma de mascar, adesivos transdérmicos; o cigarro eletrônico, apesar de sustentar os hábitos tradicionais do fumo, pode ajudar na transição, particularmente nos pacientes refratários ao uso de outros meios de reposição de nicotina.

- Medicamentos (bupropiona, vareniclina) para auxílio, devendo ser iniciados 1-2 semanas antes do dia de interrupção.

- Acompanhamento profissional médico e psicológico. Apenas um em cada 10 pacientes para de fumar sem auxílio nenhum.

 

"Mas eu fumo tão pouco"

"Fumo só quando bebo socialmente"

Essas frases são muito comuns entre adolescentes e adultos jovens. O risco de problemas de saúde de fato é dose-dependente, de forma que quanto menos uso, menor o risco. Mas se engana quem pensa que não há risco.

 

Ademais, é muito frequente observarmos que a quantidade de cigarros fumados diariamente é maior do que a reportada, e amplamente variável (em épocas de estresse, férias ou de comemorações, essas pessoas fumam significativamente mais). Fumantes esporádicos ou de baixa carga tabágica frequentemente procuram minimizar o hábito, criando meios para "fugir" do fato de que há algum grau de dependência e que isso precisa ser combatido.

 

"Eu não faço mal a ninguém, somente a mim mesmo e estou OK com isso"

Talvez esse seja um dos maiores equívocos. Em termos de saúde pública, apenas em 2016 foram despendidos quase 57 bilhões de reais com custos decorrentes do tabagismo (o valor arrecadado com impostos foi de 12,9 bilhões). O SUS é amplamente deficitário, e o tabagismo um dos principais fatores para tanto. No sistema privado, o tabagismo aumenta a causa de sinistralidade, aumentando as cotações para a população como um todo. Nos Estados Unidos, é permitida à seguradora cobrar um valor até 50% maior para a população declaradamente tabagista, estando sujeitos a testes de urina randômicos.

 

Muitos pacientes questionam se câncer de pulmão é hereditário. A única hereditariedade é do hábito de fumar. Filhos de pais que fumam têm chance 10 vezes maior de fumarem. Ademais, o tabagismo passivo (fumar perto de outras pessoas) por décadas pode aumentar em 60% o risco de câncer de pulmão, além de aumentar muito o risco de doenças respiratórias e acúmulo de metais pesados em bebês e crianças jovens. O fumo durante a gestação também pode acarretar em problemas importantes para a mãe e feto no período.

 

Na minha prática no SUS, vejo pacientes com câncer de pulmão diagnosticados aos 60-70 anos de vida que fumaram durante a vida toda, com alguns filhos e muitas vezes dezenas de netos fumantes. A prevenção é o melhor remédio.

 

"Eu sei que vou morrer um dia, então melhor viver feliz com meu cigarro"

Mesmo se esse fosse o caso, é questionável do ponto de vista das pessoas ao seu redor, financeiro e como membro de uma sociedade. Mas, o que se sabe é que a morte de um paciente tabagista na verdade é extremamente dolorosa e prolongada. Muitos dos problemas não são imediatamente fatais como se vê em filmes (infartos fulminantes), mas sim debilitantes. Derrames, infartos, doença pulmonar obstrutiva crônica e mesmo alguns cânceres podem levar anos e até décadas para causar um óbito, mas causam muitas sequelas motoras e psicológicas nesse meio tempo, comprometendo a qualidade de vida em um momento onde ela é o aspecto mais importante.

 

Em conclusão, o cigarro é talvez o agente externo mais nocivo conhecido pela medicina hoje. Seu uso crônico reduziu significativamente no Brasil, mas ainda está presente em cerca de 15% da nossa população. Muitas pessoas, porém, fumam pouco e de maneira intermitente, não se considerando fumantes. O cigarro surpreendentemente ainda é associado como "cool", sendo visto predominantemente entre adolescentes e adultos jovens, em eventos sociais e festas, os mais suscetíveis a novos vícios e pressão de grupo. Os aspectos regulatório, tributário, de propaganda em filmes e de transferência de custos e responsabilidades ainda têm que ser aprimorados. Faça sua parte e converse com seus amigos e parentes!

 

 

Fontes:

- Peto et al. BMJ 2000;321:323–329

- Hajek et al. N Engl J Med. 2019 Feb 14;380(7):629-637

- Mays et al. Pediatrics. 2014 Jun; 133(6): 983–991

- Wang et al. Ann Oncol. 2015 Jan;26(1):221-30

- http://www.saude.gov.br/noticias/agencia-saude/28578-tabaco-causa-prejuizo-de-r-56-9-bilhoes-com-despesas-medicas-no-brasil

- Cheraghi et al. Eur J Pediatr 168:897–905

- Li et al. Eur J Pediatr. 2018 Feb;177(2):257-264.


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Como resultado, reduz o crescimento do tumor e prolonga a sobrevida . Evidências mostram benefício consistente até mesmo em pessoas previamente tratadas com outros TKIs, reforçando seu papel como terapia de alto impacto. Quem pode se beneficiar do Osimertinibe no câncer de pulmão Pacientes com mutações EGFR sensibilizantes O grupo mais beneficiado inclui pessoas com: Deleções no éxon 19 L858R no éxon 21 Algumas outras alterações mais raras no EGFR Pacientes com mutação T790M A mutação T790M aparece como forma de resistência em aproximadamente 50 a 60 por cento dos pacientes tratados com TKIs de gerações anteriores. O Osimertinibe foi o primeiro TKI a demonstrar eficácia comprovada contra essa alteração, com impacto direto no controle da doença. Pacientes com metástases cerebrais Por atravessar o sistema nervoso central, o medicamento é especialmente útil para: Controlar metástases cerebrais já diagnosticadas Prevenir o surgimento de novas lesões Reduzir sintomas neurológicos Postergar radioterapia Dados publicados no New England Journal of Medicine evidenciam redução significativa no risco de progressão intracraniana. Pacientes recém diagnosticados com doença avançada No estudo FLAURA , considerado referência global, o osimertinibe mostrou aumento da sobrevida global para 18,9 meses, contra 10,2 meses com outros TKIs. Em cenários de maior risco biológico, estratégias de intensificação terapêutica têm sido avaliadas. Nesse contexto, o uso do osimertinibe associado à quimioterapia demonstrou prolongamento do tempo até progressão da doença e da sobrevida global, à custa de maior incidência de efeitos colaterais, sendo uma abordagem reservada para casos selecionados. Outra combinação recentemente aprovada é a de lazertinibe, molécula semelhante ao osimertinibe, com amivantamabe, que também foi superior ao osimertinibe isolado no estudo MARIPOSA, mas igualmente associada a toxicidades que exigem manejo cuidadoso. A decisão terapêutica passa por avaliação detalhada do caso, considerando aspectos radiológicos, moleculares, clínicos e as preferências do paciente. No segundo semestre de 2025, o New England Journal of Medicine publicou a análise final de sobrevida global do estudo FLAURA2 , que avaliou o uso do osimertinibe em combinação com quimioterapia à base de platina e pemetrexed como tratamento inicial. Os resultados demonstraram ganho adicional de sobrevida global em comparação ao osimertinibe isolado, com mediana de 47,5 meses versus 37,6 meses, respectivamente, confirmando que a intensificação terapêutica pode trazer benefício clínico relevante em pacientes selecionados, embora associada a maior incidência de efeitos adversos, exigindo criteriosa avaliação individual. Pacientes operados com alto risco de recidiva Desde 2020, o Osimertinibe é aprovado como terapia adjuvante em alguns estágios de tumores operados com mutações EGFR, que carregam alto risco de recidiva a despeito da cirurgia completa. O estudo ADAURA demonstrou uma redução de aproximadamente 80 por cento no risco de recidiva ou morte. Efeitos colaterais O Osimertinibe costuma ser bem tolerado, mantendo bom perfil de segurança. Entre os efeitos mais frequentes estão diarreia, erupções cutâneas, fadiga, alterações nas unhas, e tosse leve. Efeitos raros incluem pneumonite e prolongamento do intervalo QT. O monitoramento com o oncologista reduz riscos e permite ajustes adequados do tratamento quando necessário. Como é feito o diagnóstico das mutações EGFR Para indicar o Osimertinibe corretamente, é essencial identificar as mutações por meio de: Sequenciamento de nova geração (NGS) PCR em tempo real Biópsia líquida (quando o tumor libera DNA no sangue) Esses métodos estão amplamente disponíveis e ajudam a escolher a melhor abordagem terapêutica. Atenção! O NGS é sempre preferível para buscar co-mutações associadas ao EGFR que podem afetar prognóstico e auxiliar na decisão de tratamento, uma vez que hoje há mais de uma opção. Esse método sequencia centenas de genes ao mesmo tempo. Por que isso é decisivo Sem o teste molecular, não é possível confirmar se o tumor depende da via EGFR. Sem essa informação, o tratamento pode não trazer o benefício esperado. Osimertinibe como parte de um tratamento personalizado O plano terapêutico é individualizado e leva em conta o tipo e localização do tumor, o estágio da doença, a existência de metástases e as condições clínicas do paciente. Muitas vezes, o Osimertinibe integra um programa terapêutico que pode incluir: Imunoterapia Quimioterapia Radioterapia Cuidados de suporte Essa integração promove melhor controle, diminui sintomas e contribui para avanços importantes na qualidade de vida. Perguntas frequentes
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